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Radiação

Radiação cósmica, explicada: de onde vem, o que o Sol faz com ela e o que você pode fazer

Atualizado em 8 min de leituraPara pilotos e passageiros

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Neste artigo
  1. O que é
  2. Por que ela pode fazer mal
  3. Quanto, comparado com o quê
  4. O que define a dose de um voo
  5. Por que um Sol ativo significa menos radiação
  6. A radiação do próprio Sol
  7. O que reduz a dose, e o que não reduz
  8. As regras

Todo voo soma uma pequena dose de radiação cósmica. Para o passageiro, é um detalhe. Para quem vive de voar, isso chega a mais radiação num ano do que um trabalhador médio da indústria nuclear ou de um hospital recebe no serviço. Veja de onde vem essa radiação, por que ela muda de um voo para outro e de um ano para outro, e o que você pode (e não pode) fazer a respeito.

O que é

A radiação cósmica é feita de partículas, não de luz. A maior parte começa como raios cósmicos galácticos: núcleos atômicos, quase nove em cada dez deles prótons e quase todo o resto hélio, viajando perto da velocidade da luz. Eles vêm de fora do sistema solar, muitos acelerados por estrelas que explodem, e chegam de todas as direções, o tempo todo.

Essas partículas raramente chegam até nós diretamente. Quando uma delas atinge o topo da atmosfera, ela se choca com um núcleo de nitrogênio ou de oxigênio e dispara uma chuva de partículas secundárias (nêutrons, prótons, elétrons, múons e raios gama) que por sua vez colidem com outros núcleos. A chuva cresce enquanto desce, chega ao pico bem acima das altitudes dos jatos comerciais, por volta de 50.000 a 65.000 pés, e depois vai diminuindo à medida que o ar abaixo a absorve. A atmosfera inteira pesa tanto quanto uma camada de água de 10 metros, e quando a chuva chega ao solo quase tudo já foi barrado.

Os jatos comerciais voam em cruzeiro bem no meio dela. Em rotas de latitudes médias e altas, entre 35.000 e 40.000 pés, a taxa de dose costuma ficar entre 2 e 5 microsieverts (µSv) por hora, cerca de cem vezes o que a radiação cósmica dá ao nível do mar. Nessas altitudes, os nêutrons são os que mais contribuem.

Por que ela pode fazer mal

A radiação cósmica é ionizante. Cada partícula leva energia suficiente para arrancar elétrons dos átomos por onde passa, e dentro de uma célula isso pode quebrar o DNA. O corpo conserta quase todo esse dano. De vez em quando, um reparo dá errado de um jeito que, anos depois, contribui para um câncer.

As doses de voo não causam sintomas, queimaduras nem mal-estar. A preocupação é um pequeno aumento na chance de câncer ao longo da vida, que a proteção radiológica supõe crescer na mesma proporção da dose total, sem um limiar seguro. Para fins de proteção, a Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP) usa um risco nominal de cerca de 5% por sievert (1.000 mSv), um número que cobre o câncer e os efeitos hereditários juntos. Por essa régua, uma carreira de 30 anos em longo curso por rotas polares, a até 6 mSv por ano (o número mais alto da AIEA para tripulantes), ou 180 mSv no total, acrescenta uma chance de cerca de 1 em 110 de morrer de câncer ao longo da vida, pela estimativa da ICRP. É pouco, mas não é zero, e é por isso que a legislação da União Europeia trata a exposição dos tripulantes como exposição ocupacional.

O bebê em gestação é mais sensível do que um adulto. A orientação da ICRP é que, depois que a gravidez é declarada, a dose no embrião ou no feto fique abaixo de cerca de 1 mSv pelo resto da gestação, o mesmo valor do limite anual para o público.

Quanto, comparado com o quê

As doses do voo e da medicina são todas expressas como dose efetiva, em sieverts. A dose efetiva pondera cada tipo de radiação e cada órgão pelo dano que pode causar, e é isso que torna os números comparáveis.

Fonte Dose
Voo Nova York–Londres, julho de 2026 (cálculo do LogAloft) cerca de 0,03 mSv
Radiografia de tórax, duas incidências (frente e perfil) 0,1 mSv
Mamografia cerca de 0,4 mSv
Tomografia do abdome cerca de 8 mSv
Um ano voando como tripulante, média mundial cerca de 2,7 mSv
Um ano na indústria nuclear, média mundial cerca de 0,6 mSv
Um ano como profissional de saúde exposto à radiação, média mundial cerca de 0,4 mSv

A maior diferença está em como a dose chega. Uma radiografia ou uma tomografia é uma dose única, recebida uma vez por um motivo médico. A radiação cósmica é uma taxa de dose baixa que dura enquanto você está no ar e vai se somando ao longo de uma carreira. Ondas de rádio, celulares, Wi-Fi e micro-ondas são outro tipo de radiação: não são ionizantes e não têm energia para quebrar o DNA.

O que define a dose de um voo

Primeiro, a altitude. Quanto mais alto o cruzeiro, menos ar fica acima de você, e a taxa de dose sobe rápido a cada mil pés.

A latitude pesa quase o mesmo. O campo magnético da Terra desvia as partículas carregadas para longe do equador e as deixa entrar perto dos polos magnéticos, e acima de uns 55 graus de latitude magnética ele protege pouco. Na mesma altitude, a FAA calcula a taxa sobre as regiões polares em cerca do dobro da taxa sobre o equador geomagnético.

Depois vem o tempo. A dose é a taxa multiplicada pelas horas, então voos longos em latitudes altas são os que mais somam.

O quarto fator, o Sol, é o que surpreende.

Por que um Sol ativo significa menos radiação

O Sol sopra o tempo todo um vento solar, um fluxo fino de partículas carregadas que leva o seu campo magnético para além dos planetas. Essa bolha magnetizada protege o sistema solar interno e desvia parte dos raios cósmicos galácticos antes que cheguem à Terra.

A atividade solar sobe e desce num ciclo de cerca de 11 anos. Perto do máximo solar, o Sol tem mais manchas, um campo magnético mais forte e embaralhado e um vento solar mais irregular, e o escudo fica no seu ponto mais forte. Perto do mínimo solar, ele relaxa e passam mais raios cósmicos. O efeito é grande. Nos cálculos do LogAloft, o mesmo voo Nova York–Londres deu cerca de 41 µSv em outubro de 2009, no último mínimo solar, e cerca de 24 µSv em janeiro de 2026, um mês de atividade alta perto do máximo atual.

Pelo registro de manchas solares do Observatório Real da Bélgica, o ciclo atual chegou ao pico em outubro de 2024, e a atividade continuou alta até 2026. À medida que o Sol se acalmar a caminho do próximo mínimo, provavelmente lá pelo fim da década, o escudo enfraquece e a dose de todas as rotas vai subindo um pouco de ano para ano.

A radiação do próprio Sol

Muito pouca chega ao nível de cruzeiro. A luz do Sol, o ultravioleta e os raios X são absorvidos lá no alto da atmosfera, e as partículas do vento solar comum são fracas demais para descer até onde os jatos voam.

As tempestades solares são a exceção, e são mais frequentes perto do máximo solar. A NOAA as classifica em três escalas, e cada uma afeta a aviação de um jeito.

As tempestades de radiação solar (S1 a S5) acontecem quando uma erupção ou uma ejeção de massa coronal dispara prótons de alta energia. A maioria é fraca demais para mudar a dose no cruzeiro. As raras, muito energéticas, aparecem até nos monitores de nêutrons no solo e se chamam GLE (ground level enhancements, aumentos no nível do solo); foram registradas 77 desde 1942. Elas podem elevar as taxas de dose nas rotas polares por horas, e é aí que as companhias podem baixar os voos ou afastá-los dos polos.

As tempestades geomagnéticas (G1 a G5) chegam quando uma ejeção de massa coronal sacode o campo magnético da Terra. Os principais problemas para a aviação são o rádio HF e o GPS, mas a proteção do campo também pode recuar alguns graus em direção ao equador por um tempo. O mesmo evento muitas vezes reduz a contagem de raios cósmicos galácticos por alguns dias, porque a nuvem de material solar que passa varre uma parte deles.

Os apagões de rádio (R1 a R5) são causados pelos raios X das erupções. Eles atrapalham o rádio HF no lado iluminado da Terra por minutos ou horas e não acrescentam radiação no cruzeiro.

Nosso artigo sobre as tempestades solares e o seu voo explica as escalas, os avisos para a aviação e os maiores eventos.

O que reduz a dose, e o que não reduz

Não existe blindagem prática dentro de um avião. Para parar essas partículas são precisos metros de água ou de concreto. A fuselagem e a cabine fazem pouca diferença, e nenhuma roupa de proteção ajuda. O que você pode fazer é conhecer a dose e administrá-la.

Comece pelo seu próprio número. A dose depende das rotas, das altitudes e do Sol tanto quanto das horas, então dois tripulantes com cadernetas parecidas podem fechar o ano bem distantes um do outro. O LogAloft calcula a dose de cada voo e mantém o total do ano e da carreira. No Pro, a dose vem da trajetória que o avião realmente voou; as contas gratuitas têm isso nos voos entre aeroportos dos EUA, com os dados da FAA e dentro dos limites do plano. Fora isso, a dose é uma estimativa pela rota que uma companhia planejaria com os ventos daquele dia.

Se você tem alguma influência sobre a sua escala, misturar voos em latitudes mais baixas mantém o total do ano menor, já que as rotas polares e as longas rotas do norte são as que mais somam. Durante uma gravidez, veja o que uma escala acrescentaria antes de voá-la. A FAA recomenda que a dose no feto não passe de 0,5 mSv em nenhum mês.

Nas raras tempestades de radiação solar severas, as companhias podem baixar ou desviar os voos, seguindo os próprios procedimentos e os avisos de clima espacial emitidos para a aviação pelas regras da OACI.

As regras

Na União Europeia, quando a dose dos tripulantes pode passar de 1 mSv por ano, as companhias aéreas precisam avaliar essas doses, levá-las em conta ao montar as escalas para que os tripulantes mais expostos recebam menos, informar os tripulantes sobre os riscos à saúde e as suas doses individuais, e aplicar as proteções da diretiva para a gravidez (Diretiva 2013/59/Euratom do Conselho, artigo 35). Nos Estados Unidos, a circular consultiva AC 120-61B da FAA orienta os programas das companhias que informam as tripulações sobre a radiação em voo, mas nenhuma regra obriga uma companhia a medir ou registrar a dose de um tripulante.

Fontes

  1. AC 120-61B, In-Flight Radiation Exposure, FAA, 21 de novembro de 2014
  2. Council Directive 2013/59/Euratom (basic safety standards), EUR-Lex, 5 de dezembro de 2013
  3. ICRP Publication 103: The 2007 Recommendations of the International Commission on Radiological Protection, ICRP, 2007
  4. Dose limits, ICRPaedia, ICRP
  5. Evaluation of occupational exposure to ionizing radiation (UNSCEAR 2020/2021 Report, Annex D), UNSCEAR, 2022
  6. Cosmic radiation exposure of aircrew and space crew, IAEA
  7. Effective doses in radiology and diagnostic nuclear medicine: a catalog (Mettler et al.), Radiology, 2008
  8. Ionizing Radiation and Radiation Safety in Aerospace Environments, DOT/FAA/AM-21/8, FAA, março de 2021
  9. Galactic Cosmic Rays, NOAA Space Weather Prediction Center
  10. NOAA Space Weather Scales, NOAA Space Weather Prediction Center
  11. Ground level enhancement GLE #77 on 11 November 2025: a data summary (Mishev et al.), Advances in Space Research, 2026
  12. NOAA Space Weather Prediction Center Radiation Advisories for the International Civil Aviation Organization (Bain et al.), Space Weather, 2023
  13. Solar Cycle 25 reached its maximum in October 2024, SIDC, Royal Observatory of Belgium, 2026
  14. CARI-7 and CARI-7A, FAA Civil Aerospace Medical Institute (o modelo por trás das doses por voo do LogAloft)

Isto é informação, não orientação médica. Para dúvidas sobre a sua saúde ou uma gravidez, fale com o seu médico ou com o médico examinador da aviação.

Veja a dose de qualquer voo. Procure um voo pelo número ou pelos dois aeroportos; o LogAloft mostra a dose num mapa, comparada com uma radiografia de tórax.

Consultar um voo
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